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Os quatro elementos de uma partida

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Cláudia Martins de Lima É Cirurgiã-Dentista, Especialista em Ortodontia  e Mestranda em Odontopediatria  e Ortodontia pela FORP/USP
Cláudia Martins de Lima É Cirurgiã-Dentista, Especialista em Ortodontia e Mestranda em Odontopediatria e Ortodontia pela FORP/USP

Minha mãe começou a partir em algum dia ensolarado que já não me lembro mais. O ano era dois mil e vinte e pouco, mas ela disse à neurologista que estávamos em 1986. Eu e minha irmã olhamos incrédulas para nossa mãe. Como ela, tão lúcida estava errando algo tão simples. Só haveria de ser uma ironia dela para a médica. Mas não era. Ao longo dos anos vi ela partindo um pouco a cada dia. Lentamente. Era uma despedida sem malas, sem anúncios e sem data marcada. E agradeci a Deus por que me dava generosamente mais um dia com ela. Aprendi, então, que a eternidade às vezes cabe em um único dia. Na semana que ela definitivamente se foi, ela mudou de jeito num domingo. Dali em diante eu não a deixei mais nem um minuto. Rezei a missa pela TV, cantei as músicas preferidas, rezamos o pai nosso, o creio e o salve rainha. Na véspera da partida ela começou a respirar com dificuldade. Eu ficaria ali em casa com ela, mas decidimos que no hospital ela estaria mais confortável.  Antes, já tínhamos decidido que não colocaríamos sonda. Comer coisas gostosas foi o prazer que acompanhou minha mãe até o penúltimo dia. Ontem eu li que quem parte deixa o ar, a terra, o fogo e a água aqui e vai. E foi assim. O fogo se vai e os pés e as mãos esfriam e eu as esquentei até o último minuto. Como se o calor das minhas mãos pudesse convencer a vida a permanecer um pouco mais. O ar se vai e a respiração fica muito espaçada, profunda. E eu estive ali dizendo que eu estava com ela e que ela podia ir tranquila. A água se vai e não há mais sede, nem transpiração. E por fim, deixando o corpo aqui, ela partiu. Na madrugada sem fim como costuma ser. E eu a olhei e esperei. Sem pressa. Sem susto. Sem medo. Sem desespero. Por mais que dentro de mim o rasgo eterno acontecia, eu a deixei ir silenciosamente. Em respeito a toda caminhada terrena dela. E assim, inteira, minha mãe passou a viver dentro de mim. Há quase dois anos. Com o sorriso mais discreto, os olhos mais verdes, o rosto mais lindo que já vi na vida.

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