Cirurgia de Catarata: visão renovada
Doença é considerada a principal causa de cegueira reversível no mundo

Os médicos oftalmologistas dra. Daniela Monteiro de Barros e dr. Fernando Heimbeck, especialistas pelo Wills Eye Hospital, nos Estados Unidos, esclarecem sobre o procedimento na entrevista a seguir.
O DIÁRIO: O que é a catarata e por que ela merece tanta atenção?
DRA. DANIELA: A catarata é a perda progressiva da transparência do cristalino, a lente natural que temos dentro dos olhos. Com o tempo, essa estrutura se torna opaca, dificultando a passagem da luz e comprometendo a qualidade da visão. É uma condição geralmente associada ao envelhecimento, mas também pode ocorrer por diabetes, uso prolongado de corticoides, traumas oculares e, em alguns casos, estar presente desde o nascimento. A catarata é considerada a principal causa de cegueira reversível no mundo, representando um importante problema de saúde pública.
O DIÁRIO: Qual é a incidência da doença?
DR. FERNANDO: A catarata é extremamente frequente e sua ocorrência aumenta significativamente com a idade. Estimativas internacionais apontam que aproximadamente 94 milhões de pessoas apresentam comprometimento visual relacionado à catarata. No Brasil, a doença representa uma das principais causas de perda visual, especialmente entre os idosos. Com o envelhecimento da população, a tendência é que o número de pessoas afetadas aumente. Por isso, o acesso ao diagnóstico e ao tratamento é fundamental para preservar a autonomia e a qualidade de vida.
O DIÁRIO: Quais são os principais sintomas?
DRA. DANIELA: Os sintomas costumam aparecer de maneira gradual. O paciente pode perceber visão embaçada, dificuldade para ler, dirigir à noite ou reconhecer rostos, maior sensibilidade à luz, ofuscamento com os faróis dos carros e redução da percepção das cores, que parecem mais apagadas. Também pode ocorrer mudança frequente do grau dos óculos. Como a evolução geralmente é lenta e indolor, muitas pessoas acabam se adaptando à piora visual sem perceber sua intensidade. A avaliação oftalmológica é essencial para identificar a causa dos sintomas e definir a melhor conduta.
O DIÁRIO: Existe tratamento com colírios ou medicamentos?
DR. FERNANDO: Até o momento, não existe colírio ou medicamento comprovadamente capaz de reverter a catarata. O tratamento definitivo é cirúrgico. A indicação depende do impacto na visão e nas atividades diárias, das necessidades do paciente e da avaliação médica. Além da recuperação visual comprometida pela opacidade do cristalino, a cirurgia também pode ter finalidade refrativa, ou seja, corrigir erros de refração, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, e reduzir a dependência dos óculos. Com o planejamento adequado e a escolha da lente intraocular mais apropriada, alguns pacientes conseguem realizar grande parte de suas atividades sem óculos. Não é necessário esperar que a catarata esteja muito avançada para realizar a cirurgia.
O DIÁRIO: Como é feita a cirurgia de catarata?
DRA. DANIELA: A técnica mais utilizada é a facoemulsificação. Por meio de uma pequena incisão, o cirurgião utiliza um equipamento que fragmenta e aspira o cristalino opaco, preservando a estrutura que sustentará a lente intraocular. Em seguida, implanta-se uma lente artificial transparente para substituir a função óptica do cristalino. O procedimento costuma ser realizado com anestesia local, geralmente por meio de colírios, e o paciente normalmente retorna para casa no mesmo dia. A recuperação é progressiva, e os cuidados pós-operatórios e o uso correto das medicações são importantes para um bom resultado.
O DIÁRIO: Quais são os tipos de lentes intraoculares disponíveis?
DR. FERNANDO: A escolha da lente é uma das etapas mais importantes do planejamento cirúrgico. As lentes monofocais convencionais oferecem excelente qualidade visual em uma distância previamente definida, geralmente para longe, podendo haver necessidade de óculos para leitura. As monofocais tóricas também corrigem o astigmatismo, quando há indicação.
Existem ainda lentes de foco estendido, conhecidas como EDOF, que ampliam a faixa de visão, especialmente para longe e distâncias intermediárias, como o computador. Já as lentes multifocais e trifocais buscam proporcionar visão para longe, distâncias intermediárias e perto, reduzindo a dependência dos óculos em muitas atividades. Para pacientes selecionados, essas tecnologias podem proporcionar maior liberdade em relação aos óculos, inclusive para leitura e uso de dispositivos eletrônicos.
O DIÁRIO: Como saber qual lente é a mais adequada?
DRA. DANIELA: Não existe uma lente ideal para todos. A decisão deve considerar a anatomia e a saúde ocular, o grau, o astigmatismo, a condição da córnea e da retina, além da rotina e das expectativas do paciente. Exames pré-operatórios detalhados permitem calcular a lente e aumentar a previsibilidade do resultado. Uma conversa transparente entre médico e paciente é indispensável para alinhar benefícios, limitações e expectativas.
O DIÁRIO: Qual é a principal mensagem para a população?
DR. FERNANDO: A catarata não deve ser encarada como uma consequência inevitável do envelhecimento que precisa limitar a vida. Quando diagnosticada e tratada adequadamente, a cirurgia pode recuperar significativamente a visão, a independência e a qualidade de vida. Além disso, quando existe indicação refrativa, a escolha correta da lente pode diminuir consideravelmente a necessidade de óculos. Consultas oftalmológicas regulares são importantes para identificar a doença e também descartar outros problemas que possam comprometer o resultado visual. Enxergar bem é fundamental para viver com segurança e autonomia em todas as fases da vida.







