A geografia da eleição

“O que aconteceu?” Essa foi a pergunta que mais ouvi depois do resultado das urnas. A resposta exige olhar além de quem venceu ou perdeu. A eleição de 2026 revelou mudanças no comportamento do eleitor que merecem atenção de candidatos, partidos e estrategistas.
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno com vantagem de 2,2 milhões de votos. Terminou derrotado por 4,43 milhões. Lula acrescentou 10,38 milhões de votos à sua votação inicial, enquanto Flávio cresceu 3,72 milhões. Pela primeira vez desde 1989, o líder do primeiro turno perdeu a eleição presidencial.
A geografia dessa virada é reveladora. O crescimento de Lula ocorreu nas cinco regiões do país, inclusive onde Flávio manteve a maioria. O Sudeste respondeu por aproximadamente 4,8 milhões dos votos adicionais do petista. O resultado não se explica, portanto, apenas pela força eleitoral do Nordeste.
Barretos traduz bem essa dinâmica. Flávio venceu com 61,29% dos votos válidos, mas acrescentou 2.626 votos entre os turnos. Lula, mesmo derrotado no município, cresceu 5.397 votos, chegando a 38,71%. A diferença entre eles diminuiu de 17.434 para 14.663 votos. O comparecimento também aumentou, com quase 2 mil eleitores a mais nas urnas.
O que esses movimentos revelam? Uma possibilidade é que a disputa tenha sido definida menos pela fidelidade das bases e mais pela capacidade de ampliar o eleitorado. Também pesaram o comparecimento, a redução dos votos inválidos e as escolhas de quem não havia apoiado nenhum dos finalistas.
As campanhas apostaram em caminhos distintos de comunicação e mobilização, combinando propostas, discursos ideológicos, artistas, influenciadores e apoiadores de grande visibilidade. Mas nenhuma estratégia pode ser avaliada apenas pelo alcance de suas mensagens. É necessário compreender como foram recebidas fora dos grupos já convencidos.
Na última sexta-feira, no jantar do Lide Empresarial encontrei o deputado estadual Itamar Borges, que me disse: “Elaine, precisamos reaprender a fazer eleição”. Para ele, o comportamento do eleitor está cada vez mais diferente.
No mesmo dia, conversei com o prefeito de São José do Rio Preto, Coronel Fábio Cândido, que manifestou preocupação com a circulação de informações falsas e com o impacto de afirmações políticas sobre eleitores que não têm acesso fácil à checagem dos fatos.
As duas conversas apontam para um desafio comum: compreender um eleitor exposto a mais informações, mais estímulos e também mais desinformação.
As urnas registram escolhas, mas não explicam sozinhas suas motivações. Entre propostas, narrativas, emoções e versões conflitantes da realidade, a responsabilidade de informar tornou-se ainda maior.
Reaprender a fazer eleição talvez comece por uma mudança essencial: entender que disputar a atenção do eleitor não é o mesmo que conquistar sua confiança.






